{"id":8637,"date":"2024-04-11T11:18:41","date_gmt":"2024-04-11T14:18:41","guid":{"rendered":"https:\/\/loie.com.ar\/?p=8637"},"modified":"2024-05-23T14:54:55","modified_gmt":"2024-05-23T17:54:55","slug":"corpos-cameras-e-ecras-ensaiando-outras-coreografias-possiveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/loie-14\/reflexiones\/corpos-cameras-e-ecras-ensaiando-outras-coreografias-possiveis\/","title":{"rendered":"Corpos, c\u00e2meras e ecr\u00e3s: ensaiando outras coreografias poss\u00edveis\u00a0"},"content":{"rendered":"<p><b>Introdu\u00e7\u00e3o\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Inicio este ensaio com uma confiss\u00e3o: creio que gostaria mais do exerc\u00edcio da escrita se este n\u00e3o exigisse minha perman\u00eancia em um assento frente \u00e0 tela. Percebo uma inquieta\u00e7\u00e3o em meu corpo, uma agita\u00e7\u00e3o que o leva a dan\u00e7ar pela sala, passear pelas ruas, lavar a lou\u00e7a, enfim, qualquer atividade que n\u00e3o tenha a cadeira como molde da carne e o ecr\u00e3 como alvo dos olhos. N\u00e3o \u00e9 minimamente estranho pensar na por\u00e7\u00e3o de tempo que passamos sentados e suspensos pelas telas ao longo de nossa exist\u00eancia? A partir de uma perspectiva coreogr\u00e1fica, a contemporaneidade e seus <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">gadgets<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> n\u00e3o estariam impondo determinadas posi\u00e7\u00f5es, movimenta\u00e7\u00f5es e sequ\u00eancias em nossa vida ordin\u00e1ria? Quais seriam os efeitos sofridos individual e coletivamente desta reprodu\u00e7\u00e3o pr\u00e9-formatada de a\u00e7\u00f5es no cotidiano? Estes objetos permitiriam a execu\u00e7\u00e3o de outros gestos? Neste texto, busco tecer uma reflex\u00e3o introdut\u00f3ria sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o corpo e os dispositivos de media\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica na era digital, apresentando algumas abordagens dentro do contexto da arte contempor\u00e2nea que subvertem a coreografia vigente entre humanos e m\u00e1quinas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nas \u00faltimas semanas, estive mergulhado em discuss\u00f5es (presenciais e remotas) e p\u00e1ginas (de papel e de pixels) que tratam deste desconforto pelo qual passo e de que provavelmente compartilho com muitas outras exist\u00eancias sentadas e suspensas. Estas express\u00f5es, tal como outras utilizadas na pr\u00f3xima se\u00e7\u00e3o, empresto do te\u00f3rico da comunica\u00e7\u00e3o Norval Baitello Junior. Com mestres referenciais de peso (Dietmar Kamper, Harry Pross, Hans Belting, Vil\u00e9m Flusser, Aby Warburg, etc.), Baitello se debru\u00e7ou sobre as teorias da m\u00eddia a partir de um recorte corporificado, levando-o a escrever <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O Pensamento Sentado: Sobre Gl\u00fateos, Cadeiras e Imagens <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(2012) e sua continua\u00e7\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Exist\u00eancias Penduradas: Selfies, Retratos e Outros Penduricalhos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (2019). Tais leituras comp\u00f5em a base textual desta incipiente reflex\u00e3o que brota de um inc\u00f4modo sensorial de longa data.<\/span><\/p>\n<p><b>A dan\u00e7a dos sentados e suspensos<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Comecemos ent\u00e3o pelos ecr\u00e3s, estas telas quadril\u00e1teras que medeiam a nossa comunica\u00e7\u00e3o. Poder\u00edamos dizer, para in\u00edcio de conversa, que eles re-organizam a complexidade do mundo tridimensional em ret\u00e2ngulos de duas dimens\u00f5es: altura e comprimento. Subtrai-se a profundidade do espa\u00e7o, resultando em um plano transfigurado da realidade, atrav\u00e9s do qual emitimos e recebemos mensagens, assim como realizamos toda a sorte de fun\u00e7\u00f5es. Sedutoras iscas que capturam nossa mirada, os ecr\u00e3s nos transportam para outros mundos e, quando utilizados em altas doses, podem tamb\u00e9m vir a ser verdadeiras arapucas que nos aprisionam no \u00e2mbito virtual. Em frente aos <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">notebooks<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, por exemplo, investimos horas a fio e temos a impress\u00e3o de que realizamos uma por\u00e7\u00e3o de coisas, devido \u00e0 intensa atividade mental, \u00f3ptica e auditiva que s\u00e3o exigidas por tais experi\u00eancias mediadas. No entanto, perceba: nosso corpo permanece em torpor durante essas opera\u00e7\u00f5es, fragmentado nos quadris e nos joelhos, pontos estrat\u00e9gicos de nossa mobilidade. Os gl\u00fateos, m\u00fasculos de sustenta\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o ereta, acabam por se atrofiar e se tornar inertes almofadas, refor\u00e7ando a perda da escuta do corpo e de sua necessidade de movimento. Im\u00f3veis e sedados, perambulamos incessantemente no mundo imaterial que \u00e9 aberto por essas janelas. Neste neonomadismo, habitamos um n\u00e3o-espa\u00e7o, um vazio meio-de-campo e viramos <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">voyeurs <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">devoradores de imagens. Consumimos e, em alguma medida, tornamo-nos planos retangulares sem volume, peso, textura, cheiro ou sabor &#8211; e isto nos d\u00f3i, pois somos mat\u00e9ria e desejamos ocupar o espa\u00e7o, percorrer o campo em sua totalidade, com todos os sentidos e os riscos inerentes \u00e0 experi\u00eancia tang\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aplanado, o corpo contempor\u00e2neo segue sendo ressentido devido \u00e0 rela\u00e7\u00e3o desproporcional que tece com uma mir\u00edade de dispositivos. Como que conduzidas por um fio invis\u00edvel, nossas cervicais s\u00e3o flexionadas para manusear os celulares<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">atrav\u00e9s dos quais usamos uma s\u00e9rie de aplicativos gratuitos, por\u00e9m com custos e preju\u00edzos imensos ao nosso eixo vital. Sentados ou caminhando, permanecemos alienados em nossos <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">gadgets<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, cabisbaixos e dessintonizados do entorno mais pr\u00f3ximo, do espa\u00e7o ao redor, de quem passa por n\u00f3s e do que acontece em volta, aos lados, acima e atr\u00e1s. \u201cVivemos em uma era em que a imagem tenta impor ao corpo seus par\u00e2metros\u201d, pontua Baitello (2012, p.91), e atrav\u00e9s desta imposi\u00e7\u00e3o, nossas exist\u00eancias n\u00e3o s\u00f3 s\u00e3o aplanadas, como tamb\u00e9m suspensas ao reino rarefeito e sobre-humano das imagens. Neste dom\u00ednio, impera um senso de idealidade eterna: enquanto os corpos s\u00e3o reais e imperfeitos, sujeitos \u00e0 a\u00e7\u00e3o do tempo e da morte, as imagens se mant\u00eam intactas. Com a populariza\u00e7\u00e3o dos <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">smartphones<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, equipados com c\u00e2meras de alta qualidade, surge outro gesto coreogr\u00e1fico popular: o fio invis\u00edvel, desta vez, estende a cervical enquanto lan\u00e7amos nossos telefones ao alto, acionando suas lentes para capturar nossa narc\u00edsica imagem em primeiro plano, instantaneamente pronta para ser exposta e orbitar por tantos outros ecr\u00e3s. N\u00e3o \u00e0 toa, dist\u00farbios de autoimagem tiveram um aumento significativo junto \u00e0 explos\u00e3o das <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">selfies<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, com seus filtros, falseamentos e remo\u00e7\u00f5es de quaisquer marcas indesejadas do reino da mat\u00e9ria.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Maquinando outros gestos\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Retomando as quest\u00f5es introdut\u00f3rias, volto a indagar: quais outros gestos coreogr\u00e1ficos as tecnologias da imagem seriam capazes de fazer emergir? Encontro no terreno da arte contempor\u00e2nea, especialmente no recorte das instala\u00e7\u00f5es interativas, um terreno f\u00e9rtil para abordagens subversivas com tais dispositivos. Trago neste ensaio tr\u00eas trabalhos que contam com c\u00e2meras, ecr\u00e3s e a participa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, atrav\u00e9s da qual as obras s\u00e3o ativadas. S\u00e3o elas: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Cidade de Abstratos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (2001) do estadunidense William Forsythe, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Liminal<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (2018) do canadense Louis-Philippe Rondeau e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Castelo Neon<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (2022), meu trabalho autoral cujo segundo prot\u00f3tipo se encontra em fase de desenvolvimento.\u00a0<\/span><\/p>\n<ul>\n<li><b>1. William Forsythe &#8211; <\/b><b><i>Cidade de Abstratos<\/i><\/b><b> (2001)<\/b><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 que estamos utilizando aqui o termo \u201ccoreografia\u201d a fim de explicitar as formas pelas quais as rela\u00e7\u00f5es vetoriais entre corpos e dispositivos s\u00e3o organizadas no espa\u00e7o, comecemos nossa breve an\u00e1lise por Forsythe, artista que introduziu o conceito de\u00a0 \u201cobjetos coreogr\u00e1ficos\u201d e possibilitou a prolifera\u00e7\u00e3o do pensamento coreogr\u00e1fico para al\u00e9m do dom\u00ednio da dan\u00e7a. Segundo o artista norte-americano, os objetos coreogr\u00e1ficos instigam processos experienciais no corpo que s\u00e3o capazes de fornecer, a quem se envolve com eles, uma consci\u00eancia aguda de si mesmo, das respostas f\u00edsicas e mentais geradas por nossas faculdades heuristicamente orientadas. Mas como isto se aplica quando os objetos coreogr\u00e1ficos se resumem ao nosso recorte, isto \u00e9, as c\u00e2meras e os ecr\u00e3s?\u00a0<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_8650\"class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"max-width: 610px;\"><a href=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/forsythe-cidade-de-abstratos.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"has-caption wp-image-8650 has-caption-early has-caption-early has-caption-early\" src=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/forsythe-cidade-de-abstratos-1200x904.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"452\" srcset=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/forsythe-cidade-de-abstratos-1200x904.jpg 1200w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/forsythe-cidade-de-abstratos-800x603.jpg 800w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/forsythe-cidade-de-abstratos-768x578.jpg 768w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/forsythe-cidade-de-abstratos-1536x1157.jpg 1536w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/forsythe-cidade-de-abstratos-600x452.jpg 600w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/forsythe-cidade-de-abstratos.jpg 1900w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><strong>\u00abCidade de Abstratos\u00bb, William Forsythe, 2001.<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Cidade de Abstratos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, obra criada h\u00e1 mais de vinte anos e exibida extensivamente em diversos pa\u00edses at\u00e9 o momento presente, \u00e9 um trabalho de Forsythe que faz uso destes dispositivos como objetos coreogr\u00e1ficos. Segundo ele, \u00abpor meio de tentativa e erro, os espectadores aprendem a se ativar para saber mais sobre seu papel na constru\u00e7\u00e3o das imagens na tela. O resultado s\u00e3o coreografias inadvertidas, iniciadas por meio de investiga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o por inten\u00e7\u00e3o\u201d. Tive o privil\u00e9gio de experimentar de corpo presente esta obra na primeira exposi\u00e7\u00e3o do artista no Brasil, realizada no SESC Pomp\u00e9ia (S\u00e3o Paulo) em 2019. Era fascinante perceber como as distor\u00e7\u00f5es espaciais e temporais apresentadas na grande tela tornavam-se m\u00edsseis altamente eficazes ao criarem um esp\u00edrito de experimenta\u00e7\u00e3o no p\u00fablico, o qual investigava aut\u00f4noma e ativamente formas pelas quais seus movimentos corporais no espa\u00e7o f\u00edsico poderiam servir de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">inputs<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> para <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">outputs<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> distintos e instigantes nos ecr\u00e3s. Repentinamente, a sala se encontrava repleta de corpos dan\u00e7antes com gestualidades diversas, em especial se compararmos com os gestos que reproduzimos e avistamos com frequ\u00eancia nas telas cotidianas: sorrisos compuls\u00f3rios, poses estereotipadas, dancinhas padronizadas, cora\u00e7\u00f5es com os dedos, sinais de V, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">hang loose<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> ou at\u00e9 mesmo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">mini hang loose <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(sim, chegamos neles)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/i><\/p>\n<ul>\n<li><b>2. Louis Philippe-Rondeau &#8211; <\/b><b><i>Liminal<\/i><\/b><b> (2018)<\/b><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na obra <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Liminal<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, o canadense Louis Philippe-Rondeau utiliza um princ\u00edpio similar ao de Forsythe, ainda que com suas particularidades. O artista, cuja investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 centrada nas quest\u00f5es da p\u00f3s-fotografia, desenvolve dispositivos que exploram a autorrepresenta\u00e7\u00e3o de forma l\u00fadica e n\u00e3o convencional, buscando revelar o corpo do p\u00fablico em suas obras instalativas sob uma luz diferenciada. Tamb\u00e9m tive o prazer de presenciar este trabalho na primeira edi\u00e7\u00e3o da Nova Bienal Rio de Arte e Tecnologia, que ocorreu no Museu do Amanh\u00e3 (Rio de Janeiro) em 2023. Segundo o texto curatorial da exposi\u00e7\u00e3o, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Liminal<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 uma instala\u00e7\u00e3o interativa que evoca a passagem inexor\u00e1vel do tempo. Ela busca materializar o limite entre presente e passado. Um arco de luz aparece na escurid\u00e3o: \u00e9 um portal temporal. Ao cruzarmos esse limiar, nosso reflexo projetado na parede adjacente parece distribu\u00eddo no tempo gra\u00e7as \u00e0 t\u00e9cnica de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">slit-scan <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">aplicada. Nessa met\u00e1fora visual, vemos nossa pr\u00f3pria imagem desvanecendo inexoravelmente\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Inspirado na t\u00e9cnica fotogr\u00e1fica <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">slit-scan <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">do s\u00e9culo XIX, Rondeau em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Liminal<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, tal como Forsythe em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Cidade de Abstratos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, tamb\u00e9m faz uso da distor\u00e7\u00e3o como um recurso para engajar a participa\u00e7\u00e3o ativa do p\u00fablico e criar novas formas dos participantes enxergarem a si mesmos enquanto se movem. As imagens dos participantes, captadas no arco e refletidas em perp\u00e9tuo movimento no ecr\u00e3, acabam por ser uma representa\u00e7\u00e3o da implacabilidade do tempo &#8211; tudo que \u00e9 vivo desvanece. Como a todo momento a tela em branco \u00e9 reconstitu\u00edda (ou seja, a imagem dos corpos n\u00e3o permanece no ecr\u00e3 por mais de alguns segundos), Rondeau desmantela o estatuto de idealidade eterna do reino da imagem. Este simples gesto, associado ao aspecto distorcido da t\u00e9cnica aplicada, permite que lidemos com nossa autorrepresenta\u00e7\u00e3o de maneira mais leve e divertida, afinal, por que n\u00e3o se envolver despretensiosamente com o tempo brincante evocado pela obra se suas imagens refletidas sumiriam em instantes? Percebo essa quest\u00e3o presente quando fotografo pr\u00e1ticas de dan\u00e7a livre, com teor essencialmente experimental: a c\u00e2mera altera o campo, ora gerando um efeito inibidor quando algumas pessoas tomam consci\u00eancia de que est\u00e3o sendo observadas e capturadas, ora levando a produzir um gesto mascarado, hiperconsciente, que mais condiz com a l\u00f3gica da apar\u00eancia. Talvez fornecer ao participante a chance de sua imagem desaparecer das telas em poucos segundos seja um grande incentivo para emergir o gesto pr\u00f3prio da experi\u00eancia.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_8649\"class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"max-width: 610px;\"><a href=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/rondeau-liminal.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"has-caption wp-image-8649 has-caption-early has-caption-early has-caption-early\" src=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/rondeau-liminal-800x533.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/rondeau-liminal-800x533.jpg 800w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/rondeau-liminal-768x512.jpg 768w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/rondeau-liminal-600x400.jpg 600w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/rondeau-liminal.jpg 924w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><strong>\u00abLiminal\u00bb, Louis Philippe-Rondeau, 2018, ph. Martin Tremblay<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li><b>3. Lucas Saccon &#8211; <\/b><b><i>Castelo Neon<\/i><\/b><b> (2022)<\/b><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tamb\u00e9m inspirado na imperman\u00eancia e em uma t\u00e9cnica que utilizo extensamente em meu trabalho fotogr\u00e1fico, a longa exposi\u00e7\u00e3o, concebi minha primeira instala\u00e7\u00e3o interativa, <em>Castelo Neon<\/em><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Um diferencial chave desta obra em compara\u00e7\u00e3o \u00e0s anteriores \u00e9 que seu m\u00edssil coreogr\u00e1fico n\u00e3o envolve a distor\u00e7\u00e3o da imagem corporal, mas sim seu total obscurecimento. Neste trabalho, a c\u00e2mera capta a imagem do espa\u00e7o expositivo em plena escurid\u00e3o, impedindo o reconhecimento dos indiv\u00edduos ali presentes e, assim, criando uma atmosfera convidativa para experimentar o movimento corporal &#8211; estrat\u00e9gia antiga e utilizada em quaisquer pistas de dan\u00e7a. Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Castelo Neon #1<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, busquei criar uma ambi\u00eancia prop\u00edcia para o movimento emergir, obscurecendo aqueles que movem e iluminando o fen\u00f4meno do movimento isoladamente, fa\u00e7anha que pude levar a cabo atrav\u00e9s de duas t\u00e1ticas. A primeira consistia em fornecer um \u201cpincel digital\u201d ao p\u00fablico: em um painel de LED adjacente ao espa\u00e7o da instala\u00e7\u00e3o, um QR Code direcionava o celular de cada participante para uma ferramenta virtual que permitia preencher a tela inteira do dispositivo com um matiz \u00e0 sua escolha. A segunda estrat\u00e9gia se baseou em utilizar linguagem programacional para adulterar a imagem projetada nas tr\u00eas paredes, tornando vis\u00edvel o rastro crom\u00e1tico que era realizado pelo movimento dos celulares em tempo real. Assim, o p\u00fablico era capaz de pintar com seus pr\u00f3prios dispositivos o espa\u00e7o em que se situava, fazendo emergir rabiscos evanescentes, aparecendo e desaparecendo continuamente.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_8754\"class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"max-width: 610px;\"><a href=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/saccon-castelo-neon-gif.gif\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"has-caption wp-image-8754 has-caption-early has-caption-early has-caption-early\" src=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/saccon-castelo-neon-gif.gif\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\"><strong>\u201cCastelo Neon #1\u201d, Lucas Saccon, 2022. ph: <b>Sofia Reis e Isadora Pacini<\/b><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nesta pintura coletiva, algumas instru\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas eram apresentadas no painel de LED adjacente ao espa\u00e7o da instala\u00e7\u00e3o, convidando o p\u00fablico a explorar ludicamente diferentes qualidades de movimento que concernem \u00e0s no\u00e7\u00f5es labanianas de espacialidade e temporalidade. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Castelo Neon<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> busca estabelecer um terreno democr\u00e1tico para a emerg\u00eancia de novos gestos coreogr\u00e1ficos: quando os indiv\u00edduos desaparecem e somente os rastros luminosos s\u00e3o projetados, pouco importa se algu\u00e9m gosta ou n\u00e3o de se enxergar, se \u00e9 um dan\u00e7arino profissional ou leigo; o que vigora neste trabalho \u00e9 a possibilidade de experimentar o fen\u00f4meno do movimento inadvertidamente, sem espa\u00e7o para autocensura, infla\u00e7\u00e3o de ego ou n\u00edvel de performance. Ademais, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Castelo Neon<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> possui o intento de instaurar um espa\u00e7o-tempo extraordin\u00e1rio, no qual n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 fornecida ao p\u00fablico a chance de experimentar as nuances da motricidade, como tamb\u00e9m de deixar se deslumbrar com a experi\u00eancia est\u00e9tica das luzes, cores e formas projetadas sobre as paredes do espa\u00e7o expositivo, amalgamadas ao som de trilhas imers\u00edveis escolhidas a dedo. Na ativa\u00e7\u00e3o do primeiro prot\u00f3tipo da obra, os celulares dos participantes criavam rela\u00e7\u00f5es vetoriais extr\u00ednsecas no espa\u00e7o f\u00edsico, como se aquele fio invis\u00edvel citado no in\u00edcio deste ensaio os conduzisse muito al\u00e9m do sobe-e-desce da coluna cervical, engendrando investiga\u00e7\u00f5es corporais mais integrais e explorat\u00f3rias. Embora com grande \u00eaxito, para o segundo prot\u00f3tipo da instala\u00e7\u00e3o a ser ativada ao fim de 2024, estou desenvolvendo formas de libertar ainda mais o movimento e ilumin\u00e1-lo de outra maneira: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Castelo Neon #2<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> talvez n\u00e3o permitir\u00e1 o uso de celulares, por\u00e9m contar\u00e1 com objetos luminosos vest\u00edveis.<\/span><\/p>\n<p><b>Conclus\u00e3o<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Vimos aqui tr\u00eas abordagens distintas que utilizam as tecnologias da imagem como objetos coreogr\u00e1ficos, producentes de outros gestos, seja atrav\u00e9s de distor\u00e7\u00f5es, desvanesc\u00eancias ou desaparecimentos. Os tr\u00eas trabalhos instalativos instauram ambi\u00eancias que s\u00e3o capazes de desfazer a coreografia est\u00e1tica do sentado, imposta pelas c\u00e2meras e ecr\u00e3s que nos rodeiam na vida ordin\u00e1ria, inclusive desmanchando os gestos estereotipados que geralmente se associam a estes dispositivos. Atrav\u00e9s da emerg\u00eancia de gestualidades aut\u00f4nomas em detrimento de a\u00e7\u00f5es mais padroniz\u00e1veis, tais obras n\u00e3o deixam de gerar no p\u00fablico um senso de pertencimento, ao passo que os corpos se situam em um terreno comum de experimenta\u00e7\u00e3o e s\u00e3o transfigurados nos ecr\u00e3s sob um mesmo efeito. Ainda que as telas nas instala\u00e7\u00f5es continuem a suspender nosso olhar, suas grandes dimens\u00f5es permitem que tenhamos uma no\u00e7\u00e3o ampliada do espa\u00e7o ao redor e de quem est\u00e1 inserido nele. N\u00e3o se trata de uma coreografia humano-m\u00e1quina solit\u00e1ria, tal como geralmente vivenciamos com os <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">gadgets<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> da contemporaneidade. Estes espa\u00e7os h\u00edbridos s\u00e3o compartilhados entre pessoas, isto \u00e9, a rela\u00e7\u00e3o de vetores neles organizada permite um encontro da ordem do presencial, abrindo brechas para coreografias coletivas em \u00faltima inst\u00e2ncia. As imagens resultantes desses trabalhos obedecem, portanto, mais aos par\u00e2metros de alteridade que muitas das imagens produzidas por nossos aparelhos individualizados e individualizantes. Apropriando-se dos artif\u00edcios somente viabilizados no dom\u00ednio da imagem t\u00e9cnica, tais obras geram campos de a\u00e7\u00e3o e libertam gestos investigativos antes inexprim\u00edveis, dando vaz\u00e3o a formas corporificadas de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento. <\/span>Do \u00e2mbito digital, por fim, extrai-se sua pot\u00eancia anal\u00f3gica de retorno \u00e0 carne<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><sup>[i]<\/sup><\/a> A ativa\u00e7\u00e3o do primeiro prot\u00f3tipo da obra se deu no evento Hiperorg\u00e2nicos 10, realizado em novembro de 2022 na Inovateca (Parque Tecnol\u00f3gico da UFRJ) pelo grupo NANO (N\u00facleo de Arte e Novos Organismos da UFRJ) e seus coordenadores, Guto N\u00f3brega e Malu Fragoso. O segundo prot\u00f3tipo da obra est\u00e1 sendo desenvolvido com o intuito de ser apresentado em novembro de 2024.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Devo esclarecer que h\u00e1 in\u00fameras abordagens contemplativas da imagem (no cinema, no audiovisual, na fotografia, etc.) que engendram processos afetivos com \u00eaxito, inclusive fazendo uso da visualidade h\u00e1ptica para transmitir sensa\u00e7\u00f5es t\u00e1teis ao\u00a0 espectador. Quando me refiro \u00e0 reconex\u00e3o com a dimens\u00e3o carnal do sujeito, trato especificamente da intelig\u00eancia proprioceptiva que \u00e9 resgatada atrav\u00e9s da experi\u00eancia direta e ativa do participante nas obras em quest\u00e3o, resultando em coreografias distintas das usuais, objeto de interesse deste ensaio.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Baitello, Norval. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O pensamento sentado: sobre gl\u00fateos, cadeiras e imagens<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Ed. Unisinos, 2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Baitello, Norval. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Exist\u00eancias penduradas: selfies, retratos e outros penduricalhos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Ed. Unisinos, 2019.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Forsythe, William. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Choreographic Objects. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"http:\/\/www.williamforsythe.com\/essay\"><span style=\"font-weight: 400;\">williamforsythe.com<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Rondeau, Louis-Philippe. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Patenteux<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"http:\/\/patenteux.com\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">patenteux.com\/<\/span><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Foto de capa: Sofia Reis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o\u00a0 <span style=\"font-weight: 400;\">Inicio este ensaio com uma confiss\u00e3o: creio  &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8753,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[],"class_list":["post-8637","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reflexiones","ediciones-loie-14","autores-lucas-saccon"],"acf":[],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8637","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8637"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8637\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8912,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8637\/revisions\/8912"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8753"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8637"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8637"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8637"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}