{"id":7481,"date":"2023-05-25T11:15:11","date_gmt":"2023-05-25T14:15:11","guid":{"rendered":"https:\/\/loie.com.ar\/?p=7481"},"modified":"2023-06-09T13:44:32","modified_gmt":"2023-06-09T16:44:32","slug":"carta-a-maya-deren","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/loie-12\/homenajes\/carta-a-maya-deren\/","title":{"rendered":"Carta \u00e0 Maya Deren"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Campinas, mar\u00e7o de 2023<\/p>\n<p>Querida Maya,<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea fez Talley Beatty flutuar por 10 segundos em um <em>grand-jet\u00e9<\/em> \u2013 como se o tempo se alargasse, como se a gravidade fosse male\u00e1vel \u2013 voc\u00ea n\u00e3o s\u00f3 deu \u00e0 Dan\u00e7a uma sobrevida, mas indicou ao Cinema e \u00e0 toda a Arte uma linha de for\u00e7a. Como quem nos relembra da pot\u00eancia do corpo, como quem nos relembra do sublime que reside no movimento e, sobretudo, como quem nos relembra que as inven\u00e7\u00f5es do \u201chomem\u201d e da ci\u00eancia n\u00e3o nos engessar\u00e3o, nos apropriaremos delas.<\/p>\n<p>Acredite, quando voc\u00ea o fez saltar daquele modo, me lembrei de M\u00e9li\u00e8s, de toda sua inventividade e dessa esp\u00e9cie de frescor que h\u00e1 no in\u00edcio da hist\u00f3ria de um meio. Na verdade, quando voc\u00ea fez Talley Beatty pousar daquele salto t\u00e3o gigante como se fosse uma pluma, em 1945, voc\u00ea mostrou que todo momento \u00e9 um in\u00edcio em potencial e que a pot\u00eancia humana \u00e9 essa capacidade de criar, inventar, transformar&#8230; Como quem nos relembra do encanto. E de Arist\u00f3teles e sua po\u00e9tica. Voc\u00ea nos relembrou de tanta coisa&#8230;<\/p>\n<div id=\"attachment_7487\"class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"max-width: 578px;\"><a href=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/maya1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"has-caption  wp-image-7487 has-caption-early\" src=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/maya1-1200x601.jpg\" alt=\"\" width=\"568\" height=\"285\" srcset=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/maya1-1200x601.jpg 1200w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/maya1-800x401.jpg 800w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/maya1-768x385.jpg 768w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/maya1-1536x770.jpg 1536w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/maya1-600x301.jpg 600w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/maya1.jpg 1900w\" sizes=\"auto, (max-width: 568px) 100vw, 568px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Frames de A Study in Choreography for Camera, 1945, de Maya Deren<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Imagino que saiba que na Gr\u00e9cia Antiga, mulheres eram proibidas de participar dos debates p\u00fablicos. \u00c9 como se as proibissem de pensar. Mas pensavam. Hip\u00e1tia de Alexandria, a primeira matem\u00e1tica da qual temos registros, lecionou matem\u00e1tica, astronomia e filosofia na escola plat\u00f4nica, a mesma que formou Arist\u00f3teles. E voc\u00ea, quando come\u00e7ou a fazer filmes, fora de sua terra natal, em meio a uma Guerra Mundial e em um campo, como o do Cinema, t\u00e3o tomado por homens, nos relembrou que n\u00f3s pensamos e nunca deixaremos de pensar.<\/p>\n<p>Sabe, Maya, de certo modo, me identifico com voc\u00ea. Tamb\u00e9m sou sens\u00edvel \u00e0s quest\u00f5es do corpo e tenho apre\u00e7o pelas imagens. E penso muito, at\u00e9 demais. \u00c9 uma esp\u00e9cie de paix\u00e3o curiosa, um desejo de escrutinar as possibilidades desse encontro; com o olho, com a palavra, com a po\u00e9tica e com o pr\u00f3prio corpo, inteira.<\/p>\n<p>Assim como voc\u00ea, sou realizadora e montadora. Monto imagens porque acredito, primeiro de tudo, que elas possuam poder, e que \u00e9 preciso nos apropriarmos delas antes que o contr\u00e1rio aconte\u00e7a. Acredito tamb\u00e9m na cria\u00e7\u00e3o de mundos dentro do mundo, de sensibilidades que emergem atrav\u00e9s da linguagem. Te tomo como inspira\u00e7\u00e3o porque seu modo de pensar e construir as imagens move coisas dentro de mim.<\/p>\n<p>Em 1945, quando <em>A Study in Choreography for Camera<\/em> foi lan\u00e7ado, voc\u00ea disse pensar esse filme como uma amostra de \u201cfilme-dan\u00e7a\u201d, voc\u00ea tamb\u00e9m disse que ele \u00e9 muito curto devido a limita\u00e7\u00f5es financeiras e por isso voc\u00ea p\u00f4de apenas sugerir as potencialidades dessa forma &#8211; o \u201cfilme-dan\u00e7a\u201d. Eu acho que te entendo, mas te garanto que o que pareceu pouco j\u00e1 foi coisa demais.<\/p>\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o chegou a ver, mas hoje n\u00e3o usamos mais pel\u00edcula, salvo raras exce\u00e7\u00f5es. Em algum momento, a imagem foi transformada em dados discretos, agora ela \u00e9 formada por pixels e n\u00e3o \u00e9 mais a qu\u00edmica, mas a matem\u00e1tica, que a revela para n\u00f3s. O mundo se tornou digital e com isso, tudo mudou. As telas est\u00e3o presentes em nossas vidas de um modo que voc\u00ea jamais imaginaria, mais junto ao corpo. Ver imagens em movimento \u00e9 coisa corriqueira para boa parte do mundo.<\/p>\n<p>Em 1945 voc\u00ea criou um estudo coreogr\u00e1fico para a c\u00e2mera e em 2019 eu criei, com dois amigos, Murilo e Nat\u00e1lia, dez estudos coreogr\u00e1ficos para a c\u00e2mera e pro espectador: <em>10 estudos para uma videodan\u00e7a interativa<\/em>. Esse trabalho surge de uma curiosidade, uma puls\u00e3o, um desvio\u2026 Surge sobretudo de uma vontade. Vontade de, assim como voc\u00ea, sugerir uma forma. Em meio a tantas informa\u00e7\u00f5es e possibilidades, num mundo de temporalidade t\u00e3o acelerada, o vejo como uma esp\u00e9cie de \u00edmpeto\u2026 daqueles que podem escapar caso voc\u00ea n\u00e3o o agarre r\u00e1pido o bastante.<\/p>\n<p>Agarramos o \u00edmpeto, e ele se transformou em quest\u00e3o: Como criar uma videodan\u00e7a a partir de um mecanismo m\u00f3vel, como o do v\u00eddeo interativo? Como criar uma narrativa em que voc\u00ea, pessoa criadora, n\u00e3o tem total controle? Esse processo foi, de alguma maneira, sobre abrir m\u00e3o do resultado final, sobre sugerir uma forma e esperar que o espectador te acompanhe, sobre lan\u00e7ar o \u00edmpeto e desejar que ele o agarre tamb\u00e9m, passando de espectador a interator.<\/p>\n<p>Assim como voc\u00ea, Maya, enfrentamos a nossa quest\u00e3o a partir desse modo t\u00e3o modesto que \u00e9 o estudo. E a indaga\u00e7\u00e3o era tanta que n\u00e3o bastou s\u00f3 um estudo, fizemos dez. N\u00e3o que a curiosidade tenha acabado no d\u00e9cimo &#8211; sinceramente, poder\u00edamos ir <em>ad infinitum<\/em> -, mas assim como voc\u00ea, t\u00ednhamos limita\u00e7\u00f5es. Achamos ent\u00e3o que seria boa ideia usar o um e o zero, esses algarismos que ficaram t\u00e3o em voga desde que o tal do digital dominou os meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/10estudos1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-7488\" src=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/10estudos1-1200x675.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/10estudos1-1200x675.jpg 1200w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/10estudos1-800x450.jpg 800w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/10estudos1-768x432.jpg 768w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/10estudos1-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/10estudos1-600x338.jpg 600w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/10estudos1.jpg 1900w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><span style=\"color: #999999;\">FRAMES DE 10 ESTUDOS PARA UMA VIDEODAN\u00c7A INTERATIVA, 2019, DE GRUPO TEIA<\/span><\/p>\n<p>Caso n\u00e3o tenha ficado claro pra voc\u00ea, a quest\u00e3o da interatividade, nesse contexto digital e audiovisual, \u00e9 regida pelo contato com a tela. Com um simples toque, o espectador muda o que acontece. No primeiro estudo, al\u00e9m de introduzirmos a possibilidade do toque em si, o usamos como tema: \u201ctoque ou n\u00e3o toque\u201d, se voc\u00ea tocar, ver\u00e1 o resultado desse toque no corpo da dan\u00e7arina, se n\u00e3o tocar, nada acontece &#8211; e isso \u00e9 uma escolha tamb\u00e9m. Eu imagino o toque como uma esp\u00e9cie de mote do trabalho, um conector entre m\u00e1quina-corpo-olho-alma. \u00c9 ele que estimula o corpo e que deslancha o movimento &#8211; corpo que dan\u00e7a e corpo que v\u00ea.<\/p>\n<p>Estudamos tamb\u00e9m os pontos de vista, as partes do corpo, a m\u00fasica, o lugar, o espa\u00e7o, a quantidade, o comer, o bailarino, o reverso&#8230; N\u00e3o vou me alongar falando sobre cada um deles, \u00e9 um pouco complicado de explicar. Mas acho que j\u00e1 consegui dizer o principal: gosto como me sinto conectada com voc\u00ea por, 39 anos depois, levando seus filmes na cabe\u00e7a e no cora\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m ter sugerido uma forma.<\/p>\n<p>Sabe, tem um fil\u00f3sofo que eu gosto muito, chamado Vil\u00e9m Flusser, que, assim como voc\u00ea, era judeu e imigrou pra Am\u00e9rica fugindo da persegui\u00e7\u00e3o religiosa. Ele viveu o suficiente pra ver um pouco dessas mudan\u00e7as todas que te contei, e acabou escrevendo muito sobre tecnologia. De forma sucinta, ele prop\u00f5e a no\u00e7\u00e3o de \u201caparato\u201d, algo que \u00e9 programado para funcionar de uma determinada maneira e que carrega, al\u00e9m da dimens\u00e3o instrumental, certas ideias de mundo. Ele diz que n\u00e3o dever\u00edamos ser meros funcion\u00e1rios dessas m\u00e1quinas. Tem algo a ver com aquilo que eu te disse sobre nos apropriarmos das imagens antes que elas se apropriem de n\u00f3s, sabe? Temos que jogar. Conhecer o programa para poder subvert\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Flusser tamb\u00e9m se interessava pelos gestos e acho que voc\u00eas iam gostar de se conhecer. De qualquer forma, mesmo sem ter ouvido sobre Flusser e seus pensamentos, voc\u00ea jogou. Voc\u00ea jogou com a c\u00e2mera fotogr\u00e1fica e com a linguagem estabelecida pelo Cinema at\u00e9 aquele momento. Acho isso admir\u00e1vel. Tem algo de extremamente po\u00e9tico em jogar, n\u00e3o acha? Jogar parte de um \u00edmpeto, daqueles que se voc\u00ea agarra r\u00e1pido o bastante despertam novas sensibilidades, criam mundos dentro do mundo. No fim das contas, acho que te escrevo pra te agradecer por isso.<\/p>\n<p>Um forte abra\u00e7o,<\/p>\n<p>L\u00edgia<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/p>\n<p>DEREN, Maya. Choreography for the Camera. <strong>Dance Magazine<\/strong> , vol. 19, n. 10, outubro de 1945. Recuperado em: <a href=\"http:\/\/re-sources.uw.edu.pl\/media\/The-Study-in-Choreography-for-Camera-Maya-Deren.pdf\">http:\/\/re-sources.uw.edu.pl\/media\/The-Study-in-Choreography-for-Camera-Maya-Deren.pdf<\/a>.<\/p>\n<p>FLUSSER, Vil\u00e9m. <strong>Filosofia da caixa preta<\/strong>: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. S\u00e3o Paulo: Annablume editora, 2011.<\/p>\n<p>______. <strong>O universo das imagens t\u00e9cnicas<\/strong>: elogio da superficialidade. S\u00e3o Paulo: Annablume editora, 2008.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Imagen principal:\u00a0<\/strong>Frames de <em>10 estudos para uma videodan\u00e7a interativa<\/em>, 2019, de grupo teia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Campinas, mar\u00e7o de 2023 Querida Maya, Quando voc\u00ea fez Talley  &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7486,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-7481","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-homenajes","ediciones-loie-12","autores-ligia-villaron"],"acf":[],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7481","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7481"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7481\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7497,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7481\/revisions\/7497"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7486"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7481"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7481"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7481"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}