{"id":6102,"date":"2021-11-12T11:00:06","date_gmt":"2021-11-12T14:00:06","guid":{"rendered":"https:\/\/loie.com.ar\/?p=6102"},"modified":"2021-11-12T11:00:17","modified_gmt":"2021-11-12T14:00:17","slug":"tela-pele-campo-de-passagens-entre-a-superficie-e-a-profundidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/loie-09\/investigacion-2\/tela-pele-campo-de-passagens-entre-a-superficie-e-a-profundidade\/","title":{"rendered":"Tela \u2013 Pele: campo de passagens entre a superf\u00edcie e a profundidade"},"content":{"rendered":"<p>Com base em refere\u0302ncias est\u00e9ticas (Riegl, 1901) e filos\u00f3ficas (Deleuze; Guattari, 1997), sobre a vis\u00e3o h\u00e1ptica, o conceito de visualidade ha\u0301ptica no audiovisual discute imagens que aproximam o corpo do espectador a uma este\u0301tica qualitativamente ta\u0301ctil. Imagens cujo teor na\u0303o esta\u0301 na representac\u0327a\u0303o, narratividade ou ficcionalidade, mas cuja elaborac\u0327a\u0303o este\u0301tica, a partir da materialidade do filme ou do vi\u0301deo, implica na participac\u0327a\u0303o afetiva do espectador, sem passar por processos de uma compreensa\u0303o puramente intelectualizada, racional ou simbo\u0301lica, mas sim por uma compreensa\u0303o que acontece nos afetos vivenciados diretamente no corpo.<\/p>\n<p>Laura Marks (2000) associou a visualidade ha\u0301ptica aos filmes que elaboram os campos superficiais e que trabalham com imagens sem clareza, pouco legi\u0301veis, emaranhadas umas nas outras, por efeito de superposic\u0327o\u0303es. Imagens que inibem a identificac\u0327a\u0303o dos objetos e dos eventos retratados, imagens que esta\u0303o sem distinc\u0327a\u0303o, os objetos e pessoas esta\u0303o pro\u0301ximos da superfi\u0301cie. E esta pode ser densamente trabalhada, apresentar texturas, um alto grau de granulac\u0327a\u0303o e conter efeitos de borramento. Para Marks, esses filmes exigem do espectador uma forma autocri\u0301tica e mais ativa com a imagem; requerem uma abertura para abandonar um modo u\u0301nico e dominante de ver.<\/p>\n<p>Apontado como um dos sentidos respons\u00e1vel pelo entrela\u00e7ameto entre o olhar, o tato e a cinestesia, o ha\u0301ptico \u00e9 assim tomado como meta\u0301fora para discutir o engajamento afetivo do espectador, mas cujo uso na\u0303o tem a func\u0327a\u0303o de criar uma oposic\u0327a\u0303o entre o ta\u0301ctil (olhar pr\u00f3ximo, superficial, descentralizado) e o o\u0301ptico (olhar distante, profundo, centralizado). A noc\u0327a\u0303o de superfi\u0301cie da tela trazida pela visualidade ha\u0301ptica como fator de aproximac\u0327a\u0303o e engajamento do corpo na\u0303o busca a oposic\u0327a\u0303o, mas um modo de fazer acessar outras sensac\u0327o\u0303es e experie\u0302ncias ale\u0301m daquelas que estamos acostumados com a visa\u0303o distanciada, perspectivista, que, ao mesmo tempo, significa uma visa\u0303o normatizada e muito acostumada a determinados modos de tratamento este\u0301tico da imagem e, portanto, a padro\u0303es de visualiza\u00e7\u00e3o, de estilos e sens\u00f3rio-motores.<\/p>\n<p>Neste sentido, acreditamos ser possi\u0301vel abarcar na experie\u0302ncia, via superfi\u0301cie, uma desestabilizac\u0327a\u0303o da pro\u0301pria ideia simplificadora de superfi\u0301cie, ou seja, tentar entender a superfi\u0301cie, e portanto, a bidimensionalidade da tela, mais como um campo de passagens do que de limites.<\/p>\n<p>A superfi\u0301cie tem agregado, no ocidente, um valor negativo &#8211; um valor de superficialidade, de que algo e\u0301 visto e vivido de maneira rasa. Esse ponto tambe\u0301m esta\u0301 alicerc\u0327ado em um pensamento que nos leva a valorizar o distanciamento e a profundidade.<\/p>\n<p>A superfi\u0301cie foi definida por Euclides (300 AC), em Elementos de Geometria (COMMANDINO, 1944), como aquele elemento que tem comprimento e largura e, portanto, apenas duas dimenso\u0303es e, por essa definic\u0327a\u0303o, assume um achatamento. E\u0301 uma a\u0301rea sem profundidade. Importante lembrar que essa definic\u0327a\u0303o e\u0301 uma abstrac\u0327a\u0303o que serve a operac\u0327o\u0303es matema\u0301ticas de medidas de espac\u0327o, medidas de superfi\u0301cie, na qual sua unidade e\u0301 o metro quadrado (m2). Mas, para representar, reproduzir, construir uma superfi\u0301cie, e\u0301 necessa\u0301rio sempre um ou mais suportes ou de um ou mais materiais: um papel, uma madeira, pedras, tijolos, areias, tecidos, telas. E um suporte ou um material e\u0301 sempre tridimensional, na\u0303o importa o quanto fino ele seja. Entretanto, os achatamentos das superfi\u0301cies como ideia esta\u0303o impregnados, nas nossas relac\u0327o\u0303es com as coisas e suas apare\u0302ncias, com sua extensa\u0303o e seu comprimento, pois se diz da superfi\u0301cie como aquilo que aparece das coisas, sua a\u0301rea visi\u0301vel. E\u0301 nesse sentido que uma desvalorizac\u0327a\u0303o da superfi\u0301cie em favor da profundidade tem se configurado na cultura ocidental. Sempre falamos que algo e\u0301 superficial para dizer que na\u0303o e\u0301 bom ou que se trata apenas da apare\u0302ncia. A pro\u0301pria ideia de apare\u0302ncia ja\u0301 e\u0301 carregado de valor negativo, opondo-se a\u0300 esse\u0302ncia.<\/p>\n<a href=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/foto-de-lilian-graca.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-5894 aligncenter\" src=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/foto-de-lilian-graca.jpg\" alt=\"\" width=\"601\" height=\"376\" srcset=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/foto-de-lilian-graca.jpg 1440w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/foto-de-lilian-graca-600x375.jpg 600w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/foto-de-lilian-graca-800x500.jpg 800w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/foto-de-lilian-graca-1200x750.jpg 1200w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/foto-de-lilian-graca-768x480.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 601px) 100vw, 601px\" \/><\/a>\n<p>A dicotomia entre superfi\u0301cie e profundidade esta\u0301 pautada no mesmo pensamento dicoto\u0302mico que divide o corpo e a mente, o fora e o dentro, sendo no ponto de vista dicoto\u0302mico, a superfi\u0301cie uma divisa\u0303o propriamente dita. Aqui funciona como uma parede, um muro que separa, impossibilitando dia\u0301logos, misturas, conexo\u0303es e transfere\u0302ncias de informac\u0327o\u0303es, li\u0301quidos e imaginac\u0327o\u0303es.<\/p>\n<p>Giuliana Bruno (2014), outra estudiosa da visualidade ha\u0301ptica, preocupada com a desvalorizac\u0327a\u0303o da superfi\u0301cie na cultura ocidental, escreveu o livro <em>Surface: Matters of Aesthethics, Materiality, and Media<\/em> (2014) relacionando, entre outras questo\u0303es, como a nossa percepc\u0327a\u0303o do espac\u0327o, das coisas e do mundo passa, sobretudo, pela superfi\u0301cie da pele, pois e\u0301 por essa que entramos em contato com o mundo. Em uma entrevista para o lanc\u0327amento do seu livro, a autora falou:<\/p>\n<h6 style=\"padding-left: 120px\">Quando algue\u0301m diz \u201csuperficial\u201d geralmente e\u0301 de uma forma negativa. Por isso interroguei-me sobre o porque\u0302 de acoplar essa negatividade a uma forma material que esta\u0301 ta\u0303o presente nas nossas vidas e e\u0301 ta\u0303o central. [&#8230;] Falar de superfi\u0301cies significa tambe\u0301m mudar a nossa perspectiva do visual para o ta\u0301ctil, porque a nossa primeira superfi\u0301cie e\u0301 a face &#8211; \u201csurface\u201d. A pele expressa a nossa cultura, as nossas emoc\u0327o\u0303es, como cobre o nosso corpo e nos permite estar em contato conosco, com os outros e com o mundo. Este sentido ha\u0301ptico de estar em contato e\u0301 a nossa primeira experie\u0302ncia do espac\u0327o. Pensamos que contemplamos o espac\u0327o, mas vivemos de um modo ha\u0301ptico, tocando e mexendo. Esta hapticidade e\u0301 uma parte muito importante do modo como apreendemos o visual e o espac\u0327o visual. (BRUNO, 2014b).<\/h6>\n<p>Em que medida pode-se pensar em um dia\u0301logo entre superfi\u0301cie e profundidade no audiovisual e conjecturar a ideia de que a tela na\u0303o e\u0301 um espac\u0327o de achatamento, que se encontra profundidade na superfi\u0301cie, ou mesmo, que ela pode abarcar a tridimensionalidade?<\/p>\n<p>Afirmar que a superfi\u0301cie possa conter tridimensionalidade na\u0303o significa eliminar fronteiras indiscriminadamente ou acreditar em camadas amorfas, onde tudo e\u0301 transponi\u0301vel e transita\u0301vel, ja\u0301 que um acoplamento na\u0303o significa destruir a unidade, mas possibilitar o permear. Por isso, a pele em sua configurac\u0327a\u0303o, como unidade que se acopla estruturalmente ao ambiente permitindo passagens e transformac\u0327o\u0303es, serve-nos como meta\u0301fora. Ao lado da meta\u0301fora ha\u0301ptica, podemos aprofundar a importa\u0302ncia da pele e, consequentemente, de todo o corpo &#8211; e fazer correlac\u0327o\u0303es com a tela na\u0303o apenas como superfi\u0301cie e fronteira, mas na percepc\u0327a\u0303o do espac\u0327o e sua tridimensionalidade.<\/p>\n<p>A pele e\u0301 o maior o\u0301rga\u0303o de sentido do corpo humano. Como membrana de tra\u0302nsito (FERRAZ, 2014) entre o mundo de fora e o de dentro do corpo, com seu sistema de trocas, a pele tem func\u0327a\u0303o de decisiva importa\u0302ncia para a sobrevive\u0302ncia do ser. Essas trocas que acontecem por reac\u0327o\u0303es qui\u0301micas e fi\u0301sicas, mas tambe\u0301m meca\u0302nicas em suas camadas (a derme e a epiderme) e, portanto, de forma na\u0303o achatada, permite pensar os seus pelos, poros, ce\u0301lulas e terminac\u0327o\u0303es nervosas como espac\u0327os ou vei\u0301culos de mediac\u0327a\u0303o ou que \u201c<em>a pele e\u0301 uma superfi\u0301cie fechada em tre\u0302s dimenso\u0303es e se ramifica nas tre\u0302s dimenso\u0303es do espac\u0327o terrestre, assim como os ossos\u201d.<\/em> (GIBSON, 1966, p. 114). Sendo assim, pela qualidade constitutiva da pele, em permitir o tra\u0302nsito e a conexa\u0303o entre o dentro do nosso corpo e o nosso entorno, pode-se questionar o seu cara\u0301ter de superfi\u0301cie, ampliando seu aspecto tridimensional nas passagens do corpo. Como cita a autora Deane Juhan, em seu livro sobre conscie\u0302ncia corporal (<em>Korperbewusstsein-1987<\/em>), essas refere\u0302ncias complexas entre superfi\u0301cie e profundidade ja\u0301 esta\u0303o abarcadas desde a formac\u0327a\u0303o embriolo\u0301gica da pele que constitui com o ce\u0301rebro uma unidade desde enta\u0303o.<\/p>\n<h6 style=\"padding-left: 120px\">A conexa\u0303o entre a pele e o sistema nervoso central tem razo\u0303es fisiolo\u0301gicas e anato\u0302micas. A pele e o ce\u0301rebro originam-se da mesma ce\u0301lula matriz, a ectoderme. Apenas o ponto de vista pode decidir se a pele e\u0301 a superfi\u0301cie externa do ce\u0301rebro ou o ce\u0301rebro e\u0301 a camada profunda da pele. Superfi\u0301cie e nu\u0301cleo interno resultam da mesma camada e funcionam durante a vida do organismo como uma unidade, separa\u0301vel apenas pelo bisturi da abstrac\u0327a\u0303o anali\u0301tica. [&#8230;] Quem toca a superfi\u0301cie tambe\u0301m toca o fundo. (JUHAN, 1992, p. 119).<\/h6>\n<p>Ou seja, a pele tem esse potencial de abarcar a profundidade do corpo como a profundidade do espac\u0327o, configurando-se como um meio de comunicac\u0327a\u0303o entre o dentro e o fora por excele\u0302ncia.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia da pele na percep\u00e7\u00e3o foi estudada pelo campo est\u00e9tico e filos\u00f3fico denominado empatia este\u0301tica. Surgido no final do se\u0301culo 19 e desenvolvido ate\u0301 meados do se\u0301culo 20 por teo\u0301ricos alema\u0303es, tinha intuito de pesquisar a relac\u0327a\u0303o entre a observac\u0327a\u0303o e a transfere\u0302ncia de movimentos e afetos na experie\u0302ncia com a arte. Nesse sentido, sugeriu que na\u0303o ha\u0301 uma divisa\u0303o extrema entre os o\u0301rga\u0303os dos sentidos e, principalmente, a interdepende\u0302ncia entre o olhar e o tato foi abarcada por quase todos os seus teo\u0301ricos como essenciais para a percepc\u0327a\u0303o e como um modo de complementaridade entre esses sentidos; uma interac\u0327a\u0303o que possibilita entendimento da forma e do espac\u0327o e que explica o vivenciar fi\u0301sico na observac\u0327a\u0303o de obras de arte. Entre eles, August SCHMARSOW (1896) apontou o tato como fundante para a percep\u00e7\u00e3o da tridimensionalidade.<\/p>\n<h6 style=\"padding-left: 120px\">De qualquer modo, a descric\u0327a\u0303o dessa regia\u0303o ta\u0301ctil, que fari\u0301amos no escuro, serve para elucidar a reivindicac\u0327a\u0303o do indivi\u0301duo de nossa espe\u0301cie ao volume de espac\u0327o ao seu redor. Ja\u0301 numerosas relac\u0327o\u0303es entre o sujeito e as coisas pro\u0301ximas a ele sa\u0303o fiadas, treinadas e consolidadas nesse toque, em choque e pressa\u0303o. [&#8230;] Qualquer percepc\u0327a\u0303o do sentido da visa\u0303o e\u0301 confirmada ou melhorada por um ou mais acre\u0301scimos dos outros sentidos. (SCHMARSOW, 1896\/2007, p. 113).<\/h6>\n<a href=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/foto-de-lilian-graca-1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-5895 aligncenter\" src=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/foto-de-lilian-graca-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/foto-de-lilian-graca-1.jpg 1440w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/foto-de-lilian-graca-1-600x375.jpg 600w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/foto-de-lilian-graca-1-800x500.jpg 800w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/foto-de-lilian-graca-1-1200x750.jpg 1200w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/foto-de-lilian-graca-1-768x480.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a>\n<p>Abordar a capacidade de compreender as passagens da superfi\u0301cie a\u0300 profundidade, no que se refere a\u0300 tela do vi\u0301deo de modo semelhante a\u0300 pele, e\u0301 entender uma transposic\u0327a\u0303o como ato de percepc\u0327a\u0303o; e\u0301 entender a superfi\u0301cie na\u0303o como barreira, mas como teia, tecido, a\u0301rea de tra\u0302nsito e de locomoc\u0327a\u0303o. Neste sentido, e\u0301 possi\u0301vel fazer uma correlac\u0327a\u0303o entre a superfi\u0301cie da pele e a superfi\u0301cie da tela, ambos como mediadores, ligando espac\u0327os internos e externos. Voltamos a Giuliana Bruno (2014), que ve\u0302 a superfi\u0301cie como um meio (Medium), conectando espac\u0327os virtuais do mundo do filme e espac\u0327os materiais do mundo dos corpos.<\/p>\n<h6 style=\"padding-left: 120px\">Ha\u0301 transfere\u0302ncias da pele para a tela, [&#8230;] a superfi\u0301cie e\u0301 ela pro\u0301pria um me\u0301dium. A superfi\u0301cie e\u0301 um \u201centre\u201d, e\u0301 algo que liga o interior e o exterior. Se pensarmos nela como uma pele, num sentido lato, percebemos que e\u0301 uma fronteira permea\u0301vel, po\u0303e o ser em contato, e\u0301 uma forma de comunicac\u0327a\u0303o. Esta ideia de superfi\u0301cie reflete sobre a origem do me\u0301dium como uma forma de conectividade, no mundo virtual assim como no material. (BRUNO, 2014b).<\/h6>\n<p>A associac\u0327a\u0303o da tela com a pele na\u0303o e\u0301 gratuita, apresenta-se como um campo de limites e, ao mesmo tempo, de transposic\u0327a\u0303o entre as estruturas: uma superfi\u0301cie que implica em si mesmo um adentrar na profundidade ou, ainda, um processo de envolvimento corporal e espacial; um campo visi\u0301vel de passagens que o espectador atravessa.<\/p>\n<p>Segundo Elsaesser e Hagener (2013), a palavra Tela (Screen ou Schirm), na li\u0301ngua inglesa e alema\u0303 etmologicamente, na\u0303o esteve associada a um campo de projec\u0327a\u0303o, de passagens de luz, muito menos a\u0300 ideia de tornar algo visi\u0301vel. Tanto Schirm quanto Screen origina-se de Scirm (alema\u0303o do se\u0301culo 14), que significa sombrinha, indicando protec\u0327a\u0303o contra as intempe\u0301ries do tempo (sol, chuva, vento) ou, ainda, cobrir. Em Ingle\u0302s, Screen referia-se a uma disposic\u0327a\u0303o em que um quarto, ou em que um espac\u0327o aberto e\u0301 dividido (tal como por um biombo), com a intenc\u0327a\u0303o de esconder uma parte do espac\u0327o. Screen tambe\u0301m significava revestimento ou um filtro de protec\u0327a\u0303o como processo que cobre a\u0300 luz solar brilhante que protege uma pessoa ou objeto sensi\u0301vel a\u0300 luz. Essas definic\u0327o\u0303es sa\u0303o exatamente o contra\u0301rio a dar visibilidade a algo ou dar visibilidade a espac\u0327os nos quais se possa ultrapassar. Segundo os autores, foi em 1864 que, pela primeira vez, a palavra Screen foi utilizada para designar uma superfi\u0301cie na qual uma imagem ou objeto pode ser representado. E, processualmente, passa a significar o espac\u0327o de projec\u0327a\u0303o de imagens.<\/p>\n<h6 style=\"padding-left: 120px\">A proverbial \u00abtela de prata\u00bb (silver screen) foi originalmente usado na projec\u0327a\u0303o de imagens com a Lanterna Ma\u0301gica, um dos precursores do cinema como entretenimento popular. E a te\u0301cnica de projec\u0327a\u0303o de fantasmagoria conhece o conceito de \u00abtela de fumac\u0327a\u00bb (smoke screen), porque aqui na\u0303o e\u0301 projetado sobre um suporte material, mas na fumac\u0327a e vapor: O ar e\u0301 tornado opaco para que a luz e sombra sejam registradas nele, sem que isso o fac\u0327a ser percebido como divisa\u0303o ou obsta\u0301culo. (ELSAESSER; HAGENER, 2013, p. 54).<\/h6>\n<p>Embora as verso\u0303es etimolo\u0301gicas da palavra tela no Ingle\u0302s (Screen) e Alema\u0303o (Bildschirm) demarquem mais um campo de separac\u0327a\u0303o do que aproximac\u0327a\u0303o, a palavra tela do latim tela.ae significa fio, tecido, teia, cuja derivac\u0327a\u0303o texere e\u0301 tecer, fazer tecido ou entrelac\u0327ar. Um significado que coaduna com o processo de desenvolvimento deste dispositivo de exibic\u0327a\u0303o de imagens em movimento e seu potencial de reverberac\u0327a\u0303o em outros sentidos. Seu potencial de mobilizar corpos permite a utilizac\u0327a\u0303o da meta\u0301fora ha\u0301ptica em uma comparac\u0327a\u0303o com o funcionamento da pele, como campo de passagens, percepc\u0327o\u0303es e entrelac\u0327amentos, pois ha\u0301ptico e o\u0301ptico, assim como toque e visa\u0303o, na\u0303o precisam estar em oposic\u0327a\u0303o estrita um com o outro.<\/p>\n<p>E\u0301 nesse sentido que, apesar de sua preocupac\u0327a\u0303o com a superfi\u0301cie, a Giuliana Bruno, no ini\u0301cio de sua pesquisa, na\u0303o atrelou a visualidade ha\u0301ptica, exclusivamente, a\u0300 superfi\u0301cie como u\u0301nico meio de produzir percepc\u0327a\u0303o ha\u0301ptica. Para ela, ver hapticamente envolve tambe\u0301m o processo de formac\u0327a\u0303o espacial e sustenta que a leitura feita pelo espectador do espac\u0327o construi\u0301do no filme tem um apoio no sentido ha\u0301ptico:<\/p>\n<h6 style=\"padding-left: 120px\">A relac\u0327a\u0303o entre o filme e o conjunto arquiteto\u0302nico fi\u0301lmico envolve um embodiment, pois se baseia na inscric\u0327a\u0303o de um observador no campo &#8211; um corpo fazendo viagens no espac\u0327o. Tal observador na\u0303o e\u0301 um contemplador esta\u0301tico, um olhar fixo, um olho desencarnado. Ele e\u0301 uma entidade fi\u0301sica, um espectador em movimento &#8211; um \u00abtrabalho de pele\u00bb desenhando o mapa do espac\u0327o ha\u0301ptico. (BRUNO, 1997, p. 6).<\/h6>\n<p>E\u0301 exatamente o cara\u0301ter superficial que possibilita a profundidade, o espac\u0327o que se constro\u0301i entre as oposic\u0327o\u0303es, dissolvendo qualquer modo de apreensa\u0303o ou fruic\u0327a\u0303o u\u0301nica, baseada apenas em um tipo de olhar. Portanto, as relac\u0327o\u0303es de tensa\u0303o que possam ser construi\u0301das entre os espac\u0327os o\u0301pticos e ha\u0301pticos ajudam a vivenciar a superfi\u0301cie bidimensional da tela para ale\u0301m de uma visa\u0303o dicoto\u0302mica dos olhares extremos e separados. Possibilitam viajar nesses espac\u0327os como caleidosco\u0301pios visuais apoiados nas partes profundas da pele e articulac\u0327o\u0303es, pois nenhum olhar e\u0301, em si mesmo, totalmente o\u0301ptico ou ha\u0301ptico, mas fruto de implicac\u0327o\u0303es culturais dina\u0302micas e pode se locomover entre esses espac\u0327os.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>BRUNO, Giuliana. <em>Motion and Emotion:<\/em> Film and Haptic Space. Revista Eco-Po\u0301s, [S.l.], v.13, n. 2, p. 16 \u2013 36, 2010. Disponi\u0301vel em: http:\/\/www.pos.eco.ufrj.br\/ojs-2.2.2\/index.php \/revista\/ issue\/view\/24. Acesso em: 17 maio 2015.<\/p>\n<p>BRUNO, Giuliana. <em>Surface: <\/em>Matters of aesthetics, materiality, and media. Chicago: The university of Chicago Press, 2014a.<\/p>\n<p>BRUNO, Giuliana. Entrevista. Lisboa, 2014b. Entrevista concedida a Liz Vahia Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.artecapital.net\/entrevista-182-giuliana-bruno- Lisboa. Acesso em: 16 dez. 2018.<\/p>\n<p>COMMANDINO, Frederico. <em>Euclides:<\/em> Elementos da Geometria. Sa\u0303o Paulo: Edic\u0327o\u0303es Cultura, 1944.<\/p>\n<p>DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Fe\u0301lix. <em>Mil Plato\u0302s:<\/em> Capitalismo e esquizofrenia. Sa\u0303o Paulo: Editora 34, 1997. v.5.<\/p>\n<p>ELSAESSER, Thomas; HAGENER, Malte. <em>Film Theorie Zur Einfu\u0308hrung.<\/em> Hamburg: JuniusVerlag, 2013.<\/p>\n<p>FERRAZ, M. C. F. <em>Estatuto paradoxal da pele e cultura contempora\u0302nea: <\/em>da porosidade a\u0300 pele- teflon. Gala\u0301xia, Sa\u0303o Paulo, n. 27, p. 61-71, jun. 2014.<\/p>\n<p>GIBSON, James. The Senses Considered as Perceptual Systems. London: George Allen &amp; Unwin LTD, 1966.<\/p>\n<p>JUHAN, Deane. <em>Ko\u0308rperarbeit:<\/em> Die Soma-Psyche-Verbidung. Ein Lehrbuch. Mu\u0308nchen: Knaur Verlag, 1992.<\/p>\n<p>MARKS, Laura. <em>The skin of the film:<\/em> Intercultural cinema, embodiment and the senses. London: Duke University Press, 2000.<\/p>\n<p>RIEGL, Alois. <strong>Die<\/strong><em> Spa\u0308tro\u0308mische Kunst-Industrie nach den Funden in O\u0308sterreich- Ungarn. <\/em>Wien, 1901.<\/p>\n<p>SCHMARSOW, August. <em>U\u0308ber die Dimensionen de meschlichen Raumgebilde \u2013<\/em> 1896 In: FRIEDRICH, Thomas; GLEITER, Joerg. (Hg.) Einfu\u0308hlung und pha\u0308nomenologische Reduktion: Grundlagentexte zu Architektur, Design und Kunst. Berlin: LIT Verlag, 2007.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Im\u00e1genes: Lilian Grac\u0327a<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com base em refere\u0302ncias est\u00e9ticas (Riegl, 1901) e filos\u00f3ficas (Deleuze;  &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5893,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[132],"tags":[],"class_list":["post-6102","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-investigacion-2","ediciones-loie-09","autores-lilian-graca"],"acf":[],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6102","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6102"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6102\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6127,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6102\/revisions\/6127"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5893"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6102"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6102"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6102"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}