{"id":5455,"date":"2021-04-02T11:04:29","date_gmt":"2021-04-02T14:04:29","guid":{"rendered":"https:\/\/loie.com.ar\/?p=5455"},"modified":"2021-04-02T11:04:36","modified_gmt":"2021-04-02T14:04:36","slug":"a-danca-dos-corpos-interditados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/loie-08\/reflexiones\/a-danca-dos-corpos-interditados\/","title":{"rendered":"A dan\u00e7a dos corpos interditados"},"content":{"rendered":"<p>\u201cDeixe-me tom\u00e1-lo pela m\u00e3o. \u00c9 um gesto supremamente humano; nele, voc\u00ea e eu estamos unidos: n\u00f3s seguramos um ao outro e seguimos juntos\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>: este delicado pedido abre um ensaio de um pensador que, ao olhar o mundo, n\u00e3o cansa de ver linhas. \u00c9 como um antrop\u00f3logo ocupado com a hist\u00f3ria e a vida das linhas que Tim Ingold<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> evoca o gesto: os dedos que se enla\u00e7am s\u00e3o a imagem de um acontecimento que funda um mundo comum no qual cada vivo \u2013 cada dimens\u00e3o do vivo, ali\u00e1s \u2013 faz-se linha. Quase \u00e0 maneira do simplificado desenho infantil, que tra\u00e7a corpos em figuras-bast\u00e3o, somos feitos por linhas que continuamente se estendem, la\u00e7am e entrela\u00e7am outras linhas: num mundo assim concebido, \u201cque continuamente ganha exist\u00eancia por meio de processos de crescimento e movimento \u2013\u00a0isto \u00e9, num mundo de <em>vida<\/em> \u2013,\u00a0la\u00e7ar n\u00f3s \u00e9 o princ\u00edpio fundamental de consist\u00eancia\u201d.<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> A vida pressup\u00f5e que linhas se enlacem e se emaranhem. Em nossas m\u00e3os dadas \u2013 como, ademais, em nossos abra\u00e7os \u2013, nas tens\u00f5es e contra-tens\u00f5es dos n\u00f3s que la\u00e7amos, \u00e0s vezes fugazes, \u00e0s vezes longevos, nossos corpos-linha entretecem vida e comunidade.<\/p>\n<p>No poema <em>A viagem<\/em> de Eduardo Galeano, lemos que:<\/p>\n<p><em>Oriol Vall, \/ Que cuida de rec\u00e9m-nascidos \/ Em um hospital em Barcelona, \/ Diz que o primeiro gesto humano \u00e9 o abra\u00e7o. \/ Depois de chegar ao mundo, \/ Nos primeiros dias, \/ Os beb\u00eas manoteiam \/ Como se buscassem algu\u00e9m.<\/em><\/p>\n<p><em>Outros m\u00e9dicos, \/ Que se ocupam dos j\u00e1 vividos, \/ Dizem que os velhos, \/ Ao fim de seus dias, \/ Morrem querendo al\u00e7ar os bra\u00e7os.<\/em><\/p>\n<div style=\"max-width: 397px\"><a href=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/stanley-spencer-hilda-welcomed.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"has-caption wp-image-5469 has-caption-early has-caption-early\" src=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/stanley-spencer-hilda-welcomed.jpg\" alt=\"\" width=\"387\" height=\"591\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Hilda welcomed- @Stanley Spencer<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como parte do ritual f\u00fanebre dos Kuikuro, povo ind\u00edgena do Alto Xingu, o morto \u00e9 pintado, adornado e <em>abra\u00e7ado<\/em> antes de seguir para o outro mundo. Na pandemia, n\u00e3o mais. Na pandemia, os corpos s\u00e3o interditados e j\u00e1 n\u00e3o se aproximam sem a dimens\u00e3o do medo. O cont\u00e1gio \u00e9 uma imin\u00eancia. O contato passa a ser \u201cocasi\u00e3o de morte poss\u00edvel, e todo o encontro, um mau encontro\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. A esfera dos nossos movimentos n\u00e3o deve penetrar a do outro: j\u00e1 n\u00e3o podemos, como antes, habitar e dan\u00e7ar o espa\u00e7o comum, pois protocolos sanit\u00e1rios imp\u00f5em outros tr\u00e2nsitos no espa\u00e7o. Somos ensinados a tornar nossos gestos <em>barreira<\/em>; nossos cumprimentos n\u00e3o nos enla\u00e7am, reduzidos que est\u00e3o, quando tanto, ao toque anguloso, retra\u00eddo e \u00f3sseo de cotovelos ou de falanges de m\u00e3os fechadas; a dist\u00e2ncia do afastamento que devemos metrificar quanto ao outro \u00e9 a dos nossos bra\u00e7os abertos e estendidos, por\u00e9m vazios e intocados. Num tempo que se tem repetidamente reconhecido como dist\u00f3pico, dar as m\u00e3os e abra\u00e7ar s\u00e3o nossa utopia de proximidade.<\/p>\n<p>O tr\u00e2nsito dos corpos no espa\u00e7o compreende uma dimens\u00e3o coreogr\u00e1fica. Numa concep\u00e7\u00e3o expandida, a coreografia trata de \u201c[\u2026] organizar corpos no espa\u00e7o, ou organizar corpos com outros corpos, ou um corpo com outros corpos num meio que \u00e9 organizado\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>, diz William Forsythe. Na entrada de uma de suas instala\u00e7\u00f5es coreogr\u00e1ficas \u2013 <em>Abstand<\/em>, de 2005 \u2013, lia-se a instru\u00e7\u00e3o: \u201cFavor manter a dist\u00e2ncia de 1 metro da parede e dos outros visitantes\u201d. Na pandemia, o tr\u00e2nsito dos corpos atende a uma instru\u00e7\u00e3o coreogr\u00e1fica correlata, por\u00e9m definida e imposta por par\u00e2metros do assim chamado \u201cdistanciamento social\u201d: os percursos da nossa coabita\u00e7\u00e3o cotidiana desde a\u00ed institu\u00eddos t\u00eam desvios e esperas, \u00e0s vezes constrangidas, de evitamento; testemunhamos imagens in\u00e9ditas: em julho de 2020, a habitual multid\u00e3o de mu\u00e7ulmanos circundando a Caaba, na peregrina\u00e7\u00e3o anual a Meca, j\u00e1 n\u00e3o se repetiu; na pandemia, c\u00edrculos ordenadamente conc\u00eantricos foram tracejados pelos corpos dos caminhantes. Antes, em abril, milhares de manifestantes ocuparam a Pra\u00e7a Yitzhak Rabin, em Tel Aviv, num protesto feito por corpos equidistados em 2 metros. Admir\u00e1vel e justific\u00e1vel, a imagem \u00e9 quase um ox\u00edmoro espacial: a for\u00e7a incontida de uma indigna\u00e7\u00e3o que leva \u00e0s ruas se configura, contida e regulada, em filas. (Mas, em junho e tamb\u00e9m depois, pelo mundo, feliz <em>e<\/em> infelizmente, as configura\u00e7\u00f5es coreogr\u00e1ficas foram outras. Em desobedi\u00eancia civil e num levante por outras grandes emerg\u00eancias que desde sempre deveriam <em>importar<\/em>, elas j\u00e1 n\u00e3o puderam se fazer e conter em par\u00e2metros sanit\u00e1rios.)<\/p>\n<p>Estranhamente, ainda h\u00e1 pouco, repet\u00edamos contra um crescente e encarnado fascismo entre n\u00f3s: \u201cNingu\u00e9m solta a m\u00e3o de ningu\u00e9m.\u201d Sabemos dos incont\u00e1veis matizes de sofistica\u00e7\u00e3o do tato, dos incont\u00e1veis sentidos que emergem das m\u00e3os que se d\u00e3o: cada pequena nuance de intensidade, cada conforma\u00e7\u00e3o do tocamento, cada variedade de textura, de temperatura ou de t\u00f4nus pode instaurar rela\u00e7\u00f5es muito diversas (e que incluem mesmo as opress\u00f5es, das quais se torna necess\u00e1rio, justamente, <em>emancipar-se<\/em>). M\u00e3os podem ser dadas a servi\u00e7o de projetos est\u00e9ticos e pol\u00edticos muito distintos. Mas a m\u00e3o dada que ent\u00e3o se evocava se queria t\u00e3o-somente um signo de solidariedade, de aten\u00e7\u00e3o rec\u00edproca, de cuidado m\u00fatuo. Pois sab\u00edamos e sabemos que este fascismo entre n\u00f3s que grita anacr\u00f4nico contra o <em>comun<\/em>ismo quer, de fato, atentar contra tudo aquilo que \u00e9 <em>comum<\/em>, <em>comunal<\/em>, <em>comun<\/em>it\u00e1rio, contra tudo aquilo que faz <em>comun<\/em>idade.<\/p>\n<p>\u201cNingu\u00e9m solta a m\u00e3o de ningu\u00e9m.\u201d Uma das belezas de tal signo se liga \u00e0 sua dimens\u00e3o \u00e9tica \u201cprofundamente corporal\u201d: \u201cN\u00e3o se trata de \u2018ningu\u00e9m esquece ningu\u00e9m\u2019 e nem mesmo de \u2018ningu\u00e9m deixa de pensar na vida de ningu\u00e9m\u2019. Convida o corpo \u00e0 a\u00e7\u00e3o e ao encontro. Convida \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o com o suor que o contato ininterrupto com outra m\u00e3o produz. Seu acerto, penso eu, consiste justamente na mobiliza\u00e7\u00e3o corporal e n\u00e3o simplesmente racional\u201d, escrevia Helena Vieira<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>, num tempo em que ainda era poss\u00edvel reivindicar, sem medo, o gesto e sua \u201ccontamina\u00e7\u00e3o\u201d pelo contato das peles como um bom encontro.<\/p>\n<div style=\"max-width: 397px\"><a href=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/thereza-nardelli-ningue-m-solta-a-ma-o-de-ningue-m.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"has-caption wp-image-5470  has-caption-early has-caption-early\" src=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/thereza-nardelli-ningue-m-solta-a-ma-o-de-ningue-m.jpg\" alt=\"\" width=\"387\" height=\"517\" srcset=\"https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/thereza-nardelli-ningue-m-solta-a-ma-o-de-ningue-m.jpg 984w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/thereza-nardelli-ningue-m-solta-a-ma-o-de-ningue-m-600x801.jpg 600w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/thereza-nardelli-ningue-m-solta-a-ma-o-de-ningue-m-899x1200.jpg 899w, https:\/\/loie.com.ar\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/thereza-nardelli-ningue-m-solta-a-ma-o-de-ningue-m-768x1025.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 387px) 100vw, 387px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Ningue_m solta a ma_o de ningue_m- @Thereza Nardelli<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nossas dan\u00e7as a dois \u2013 c\u00eanicas ou n\u00e3o \u2013 s\u00e3o inumer\u00e1veis; cada uma configura uma breve e m\u00ednima comunidade. Mas nossas dan\u00e7as se fazem tamb\u00e9m a tr\u00eas, a quatro, a muitos. Nossas cirandas o testemunham: a mera disposi\u00e7\u00e3o dos corpos, ainda im\u00f3veis, em c\u00edrculo, j\u00e1 tende a insinuar uma experi\u00eancia comunal; a experi\u00eancia \u00e9 intensificada quando m\u00e3os dadas os unem. As dan\u00e7as que se desdobram da\u00ed a prolongam: as partilhas, por cada corpo, do ritmo, da respira\u00e7\u00e3o e do passo entretecido, nos <em>comunam<\/em>; s\u00e3o muitas as dan\u00e7as que frequentamos da inf\u00e2ncia \u00e0 vida mais adulta e festiva que repetem esta experi\u00eancia t\u00e3o pr\u00f3pria \u00e0 topologia do c\u00edrculo. Outras din\u00e2micas \u2013 variadas por cada corpo \u2013 podem mesmo emergir, modulando as intensidades, produzindo desequil\u00edbrios, desviando percursos, instabilizando a configura\u00e7\u00e3o e tensionando a socialidade dada. Os corpos podem a\u00ed se contorcer, perder o ritmo, se desequilibrar; as m\u00e3os podem mesmo momentaneamente soltar-se, mas algo a\u00ed insiste como uma experi\u00eancia comum e comunal, como for\u00e7a vital. \u201cA gente tem que estar numa grande ciranda, fazendo a ciranda cirandar; tem horas que a gente vai para c\u00e1, tem horas que a gente vai para l\u00e1, tem horas em que uma das m\u00e3os se solta e a gente vai pegando, eu quero acreditar que possa ser assim\u201d, disse Lia Rodrigues numa recente conversa remota com a tamb\u00e9m core\u00f3grafa Andr\u00e9a Bardawil.<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Na pandemia, por\u00e9m, n\u00e3o devemos sequer nos aproximar dado o risco de respirar o \u201cmesmo\u201d ar. Muito do que dan\u00e7amos est\u00e1 impedido; pois a dan\u00e7a, frequentemente, pede que nosso corpo se lace no corpo de um outro, nos corpos de v\u00e1rios outros; \u00e9 fato que a dan\u00e7a nos reclama pr\u00f3ximos: nossas peles se tocam, nossas m\u00e3os se d\u00e3o, nossos bra\u00e7os abra\u00e7am, respiramos juntos. Aqueles que dan\u00e7am tendem sempre a estar, literalmente, mancomunados e conspirat\u00f3rios, em insurg\u00eancia contra as for\u00e7as da morte. A quest\u00e3o de como seguir dan\u00e7ando frequenta cada um de n\u00f3s, hoje, mais do que nunca. Como seguir mancomunados quando nossas m\u00e3os n\u00e3o se podem dar? Como seguir conspirat\u00f3rios quando j\u00e1 n\u00e3o podemos respirar juntos? Como se insurgir, dan\u00e7ando, contra as for\u00e7as da morte e \u2013 no Brasil de hoje, cabe a nuance \u2013 contra as for\u00e7as do deixar morrer e as for\u00e7as do matar? Como seguir fazendo da dan\u00e7a um modo de vida e um manifesto da vida?<\/p>\n<p>A pandemia, em certos territ\u00f3rios, intensifica-se e avan\u00e7a; em outros, modera-se e recua, mas perdura. \u00c9 fato que, hoje, vivemos ainda atravessados pelo medo e imersos em luto por todos que seguem morrendo nos nossos dias e por tudo que segue morrendo no nosso tempo. Na paisagem diante de n\u00f3s, qualquer figura que emerge no primeiro plano como for\u00e7a de vida, que se esfor\u00e7a como afeto de alegria, tem alguma tristeza como fundo. Mas isso \u00e9 tudo o que pode ser agora, \u00e9 \u201co que temos para hoje\u201d \u2013 e pode ser muito. Importa \u201cescolher, contra o que nos faz tremer de apreens\u00e3o e nos instala na instabilidade e no p\u00e2nico, as for\u00e7as de vida que nos ligam (poderosamente, mesmo sem sabermos) aos outros e ao mundo\u201d, escreveu Jos\u00e9 Gil num texto intitulado, precisamente, \u201cO medo\u201d. \u00c0 maneira do que, verde, germina improv\u00e1vel nas frestas do concreto ou do que irrompe pelas rachaduras nele for\u00e7adas, <em>sob o pavimento<\/em>, a vida insiste em se manifestar e se fazer manifesto do que ainda pode vir a ser. Na pandemia, os gestos com que nos la\u00e7amos est\u00e3o agora suspensos e interditados, mas podem e devem insistir como signo; e \u00e9 como signo em ato e pleno de corpo que podem e devem ser de novo e sempre reivindicados.<\/p>\n<p>Da\u00ed que, mesmo na arquitetura das redes que hoje nos enredam, esfor\u00e7amo-nos para produzir gestos que nos <em>comunem<\/em>. Seguir dan\u00e7ando, ainda que isolados, \u00e9 um dos gestos que nos cabem, entre muitos que podemos inventar ou reinventar. \u201cDance, sen\u00e3o estamos perdidos\u201d \u00e9 uma conhecida frase de Pina Bausch, a core\u00f3grafa em que os gestos de dar as m\u00e3os e de abra\u00e7ar produziram cenas que nos marcaram a mem\u00f3ria. Na pandemia, em dan\u00e7as m\u00ednimas, em solos, muitos de n\u00f3s criam seu pr\u00f3prio <em>primeiro cinema<\/em>: diante da c\u00e2mera frontal e im\u00f3vel, em plano geral e sem cortes, dan\u00e7amos. A tela plana duplica a bidimensionalidade dos espa\u00e7os frequentemente ex\u00edguos e sem profundidade; e, no entanto, eventualmente, algo se avoluma na dire\u00e7\u00e3o de quem v\u00ea <em>e o toca<\/em>. A vis\u00e3o da dan\u00e7a faz algo em n\u00f3s dan\u00e7ar. Um giro gira em n\u00f3s. A vis\u00e3o de um abra\u00e7o faz abra\u00e7o em n\u00f3s. \u201cEste planeta est\u00e1 carente de sensibilidade e todos n\u00f3s que trabalhamos com este lugar sens\u00edvel, temos trabalho demais para fazer\u201d, disse Dudude Herrmann noutra conversa, tamb\u00e9m recente, sobre \u201ca dramaturgia da tela\u201d.<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Diante do grande planeta, qualquer pequeno gesto parece insignificante, inconsequente e indiferente; um grande entrave \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o de ativismos em nossos cotidianos se liga ao fato de que o impacto do pequeno gesto no estado das coisas do mundo n\u00e3o \u00e9 da ordem do experienci\u00e1vel. As escalas de tempo e de espa\u00e7o do mundo escapam \u00e0 nossa percep\u00e7\u00e3o. No entanto, na pandemia, a virtualidade dos la\u00e7os se fez afinal experimentar no corpo; agora temos a sensa\u00e7\u00e3o de que o alcance do corpo a corpo dos nossos gestos pode ser global. Algu\u00e9m tossiu na China. A sugest\u00e3o de que haveria apenas <em>seis<\/em> <em>graus de separa\u00e7\u00e3o<\/em> entre quaisquer dos habitantes do planeta j\u00e1 n\u00e3o parece t\u00e3o quim\u00e9rica. \u00c9 uma \u201cli\u00e7\u00e3o maravilhosa\u201d que, apesar de tudo, Bruno Latour consegue recolher da pandemia: \u201co velho modelo de a\u00e7\u00e3o que tanto nos desesperava (como um indiv\u00edduo vai lutar sozinho contra um sistema esmagador?), na realidade, n\u00e3o faz sentido. [\u2026] N\u00e3o existe sistema capaz de resistir \u00e0 viralidade da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d.<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Contaminemo-nos dos bons cont\u00e1gios, dos gestos que dan\u00e7am e dos que nos enla\u00e7am: \u201cningu\u00e9m solta a m\u00e3o de ningu\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> INGOLD, Tim. On human correspondence. <em>Journal of the Royal Anthropological Institute<\/em>, vol. 23, issue 1, 2016, p. 16. (Let me take you by the hand. It is a supremely human gesture, and in it, you and I are joined. We hold on to one another and go along together.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Tim Ingold, professor de antropologia na Universidade de Aberdeen, \u00e9 autor, entre numerosas obras, de \u201cLines: a brief history\u201d (2007) e \u201cLife of lines\u201d (2015), ambos publicados pela Routledge.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Idem. (\u2026continually coming into being through processes of growth and movement \u2013 that is, in a world of life \u2013 knotting is the fundamental principle of coherence.)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> GIL, Jos\u00e9.\u00a0 O medo. <em>In:<\/em> <em>pandemia cr\u00edtica.<\/em> Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.n-1edicoes.org\/textos\/21. Acesso em: 20 out 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Em sua confer\u00eancia na Forsythe Lectures, realizada pela deSingel Internationale Kunstcampus, em 2014, o arquiteto Steven Spier confessa que o que vem fazendo nos \u00faltimos dez anos \u00e9 \u201cdesempacotar\u201d tal defini\u00e7\u00e3o e que se interessa por ela principalmente porque pode ser lida como uma defini\u00e7\u00e3o de arquitetura. Dispon\u00edvel em:<\/p>\n<p>&lt;https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=NI8hRRTTHag&amp;t=106s&gt;. Acesso em: 31 out. 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> VIEIRA, Helena. Notas (im)poss\u00edveis para um futuro insistente. <em>In:<\/em> BISPO, Tain\u00e3 (Org.). <em>Ningu\u00e9m solta a m\u00e3o de ningu\u00e9m<\/em>: manifesto afetivo de resist\u00eancia e pelas liberdades. S\u00e3o Paulo: Claraboia, 2019, location 1,162.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Tematizando o espet\u00e1culo \u201cF\u00faria\u201d, de Lia Rodrigues, a conversa foi promovida pelo Laborat\u00f3rio de Dan\u00e7a do Porto Iracema das Artes (CE), como parte do programa \u201cAnatomia de Dan\u00e7a\u201d. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=irEDOzCAWR4. Acesso em: 26 out. 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> A conversa, tamb\u00e9m promovida pelo Laborat\u00f3rio de Dan\u00e7a do Porto Iracema das Artes (CE), fez parte da s\u00e9rie \u201cCo-labora\u00e7\u00f5es remotas\u201d; dispon\u00edvel em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=x5xoly8ej6c&amp;t=7171s. Acesso em: 24 out. 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> LATOUR, Bruno. N\u00e3o existe sistema capaz de resistir \u00e0 viralidade da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. <em>El Pa\u00eds<\/em>, 24\/07\/2020.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDeixe-me tom\u00e1-lo pela m\u00e3o. \u00c9 um gesto supremamente humano; nele,  &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5470,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[],"class_list":["post-5455","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reflexiones","ediciones-loie-08","autores-paulo-caldas"],"acf":[],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5455","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5455"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5455\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5723,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5455\/revisions\/5723"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5470"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5455"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5455"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/loie.com.ar\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5455"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}